SOCIOLOGIA E SENSO COMUM: REFLEXÕES A PARTIR DE PIERRE BOURDIEU
SOCIOLOGIA E SENSO COMUM: REFLEXÕES A PARTIR DE PIERRE BOURDIEU
Davi Andrade
Esse texto visa refletir sobre a natureza do saber científico na sociologia e a necessidade de superar o senso comum na construção dos objetos de pesquisa. Bourdieu afirma que "construir um objeto científico é, antes de mais nada e sobretudo, romper com o senso comum" (2007, p. 34). Isso nos leva a entender que o papel do sociólogo vai além de descrever fenômenos sociais; ele deve estabelecer conexões mais profundas que permitam uma análise rigorosa e crítica da realidade.
Um dos conceitos instigantes de Bourdieu é o "Double Bind", que nos alerta para os perigos do habitus academicus, o qual pode restringir nossa percepção dos fenômenos sociais. Muitas vezes, somos levados pela "ilusão da compreensão imediata" (2007, p. 45), perdendo a capacidade de adotar uma postura crítica.
Nesse ponto, a "Pedagogia da Pesquisa" de Bourdieu se mostra essencial. Ele defende a "objetivação participante", em que o pesquisador interage com o objeto sociológico sem se prender a teorias pré-concebidas, permitindo que a realidade social nos desafie a criar novas abordagens teóricas e metodológicas.
Bourdieu também adverte que romper com preconceitos inconscientes é um processo difícil, pois envolve "ruptura das aderências e adesões mais profundas" (2007, p. 51). Contudo, acredito que esse rigor, aliado à abertura para novas hipóteses, é fundamental para construir um conhecimento verdadeiramente crítico.
Por outro lado, me questiono: esses conceitos, que parecem evidentes para nós, estudantes de ciências sociais, ainda precisam ser debatidos? Afinal, sabemos que a boa ciência social exige uma ruptura com o senso comum e uma relação empírica com o objeto de estudo, sem impor modelos teóricos rígidos. Será que Bourdieu está, em certo sentido, reafirmando o óbvio, ou ainda há valor em refletir sobre essas questões?
A proposta de Bourdieu por uma sociologia reflexiva é comparável ao "ovo de Colombo". Para os que desconhecem, essa metáfora refere-se a uma história em que Colombo, durante um jantar com o rei da Espanha, foi confrontado por um convidado que alegava que descobrir a América era algo fácil. Colombo respondeu desafiando os presentes a colocarem um ovo em pé sobre a mesa. Os convidados tentaram sem sucesso, até que Colombo quebrou a extremidade inferior do ovo e o deixou em pé. Ao protestarem que isso era muito fácil, ele retrucou: "Depois que alguém mostra o caminho, tudo se torna fácil". No entanto, em termos de pesquisa, ao contrário desse exemplo, mostrar o caminho não é suficiente. Mesmo que concordemos que as premissas apresentadas por Bourdieu estão corretas e parecem evidentes, por que ainda não as aplicamos amplamente em nossas pesquisas?
Acredito que os inúmeros exemplos trazidos por Bourdieu servem não apenas para ilustrar, mas também para explicar e objetivar as causas dessa dificuldade. Quando ele fala de um "senso comum douto", de uma "sociologia espontânea" e de um "habitus academicista", contrário ao habitus científico, ele está mostrando como práticas científicas podem ser moldadas por uma visão acrítica, que reproduz estruturas preestabelecidas. Bourdieu afirma que "O habitus científico é uma regra feita homem ou, melhor, um modus operandi científico que funciona em estado prático segundo as normas da ciência sem ter estas normas na sua origem"(Bourdieu, p. 21-23). Em outras palavras, as práticas científicas não nascem espontaneamente, mas são moldadas pelo campo em que o pesquisador está inserido, o que torna difícil a aplicação das premissas reflexivas em nossas pesquisas.
Os exemplos negativos que Bourdieu apresenta são mais do que pedagógicos; eles ilustram a centralidade da questão e servem para objetivá-la. Não é a partir do senso comum que ele constrói sua crítica. Ao afirmar que o fazer científico se posiciona em meio a uma variedade de campos que condicionam o pesquisador, suas categorias, conceitos e problemas, Bourdieu demonstra as razões pelas quais, mesmo aceitando suas premissas, é difícil aplicá-las na prática. Como ele afirma, "a pesquisa é uma coisa demasiado séria e demasiado difícil para se poder tomar a liberdade de confundir a rigidez, que é o contrário da inteligência e da invenção, com o rigor"(Bourdieu, p. 26).
Não é por acaso que Bourdieu sugere que a ciência deve ser feita "contra o senso comum acadêmico". O "senso comum douto" é aquele que dá uma aparência de ciência a afirmações que, na verdade, não são científicas. Ele é resistente porque dota de sentido as práticas de todo um campo de relações e nos acomoda a um olhar reprodutivo da ciência. Bourdieu afirma que "o real é relacional", e que muitas vezes julgamos saber tudo sobre um objeto quando, na verdade, ele só existe em suas relações com o todo. Assim, é mais fácil tomar os objetos, problemas, teóricos e métodos de forma quase automatizada, como nos condiciona o que Kuhn chamou de "ciência normal". Para Bourdieu, é nesse ponto que se encontram os entraves para a ruptura epistemológica, que não é apenas com o senso comum ordinário das representações cotidianas, mas também com o próprio senso comum dos cientistas.
Diante disso, proponho uma pergunta que respondo pessoalmente e com sinceridade: Quando você escolheu seu objeto de pesquisa e definiu seu problema, você realmente parou para pensar como ele emerge como um problema? A que atores sociais e campos sociais ele está ligado? Quem interfere na construção social desse objeto como uma questão legítima a ser pesquisada?
Por exemplo, no caso da profissão docente, tema da minha pesquisa, tomei-a como uma questão inequívoca. Li autores que abordam o tema, absorvi seus conceitos e procurei aplicá-los à minha pesquisa. No entanto, não compreendo exatamente a partir de qual contexto esse tema passou a ser considerado um problema. Quando, e sob que condições, as identidades docentes tornaram-se um objeto reconhecido e pesquisável? Bourdieu nos ensina que "os objetos não são entidades fixas, mas são socialmente construídos, emergindo das interações entre indivíduos, grupos e estruturas de poder".
Essa não é uma resposta que se alcança com uma simples revisão bibliográfica. Com ela, consegui entender os conceitos e os modelos de análise mais correntes, mas não consegui compreender como esses conceitos foram constituídos socialmente. Sei que certos conceitos e métodos existem, mas não sei como se inter-relacionam e se constroem dentro do campo acadêmico. Não sei, ao certo, que preconceitos possuo sobre o tema, nem o que me inclina a preferir esta ou aquela teoria ou metodologia.
Bourdieu nos lembra que "as opções teóricas mais empíricas são inseparáveis das opções teóricas de construção do objeto" (Bourdieu, p. 24). Assim, compreender as condições sociais e históricas que moldaram meu objeto de estudo é essencial para que eu possa me posicionar criticamente em relação a ele e evitar uma reprodução automática das perspectivas já consolidadas.
Portanto, parece-me, é ainda mais difícil do que aparenta em uma primeira impressão pôr em prática essas premissas trazidas, pois acreditamos piamente já as ter incorporado em nossas disposições como pesquisadores (gostamos não apenas do acabado em termos da pesquisa, como também cremos estarmos acabados como pesquisadores). Não são dimensões completamente desconhecidas, porém, talvez apenas em poucos casos consigamos fazer aquilo que Bourdieu considera uma objetivação participante, a construção da pesquisa não como reprodução de problemas, conceitos, categorias já consolidadas, mas um posicionamento ativo e em contra-fogo com as supostas verdades, não apenas de um senso comum, mas de um senso comum douto, que é ainda mais perigoso, pois é o senso comum da ciência, que nos oferece uma dimensão já objetivada da realidade, mas da qual não participamos e tomamos como algo produzido por nossas mãos, quando a pegamos emprestada de outrem. E se não cuidamos de ter essa atitude científica, essa dúvida radical e propensão para seguir um novo olhar, sociológico, relacional, na construção da pesquisa, não trazemos uma verdadeira ruptura epistemológica ou participamos ativamente da objetivação que pretendemos. Como afirma Bourdieu : ‘'A construção do objeto – pelo menos na minha experiência de investigador – não é uma coisa que se produza de uma assentada, por uma espécie de ato teórico inaugural'’, dito de outro modo, é algo contínuo, em que precisamos nos posicionar ativamente. Isto é, tornamo-nos marionetes de um campo de relações que não compreendemos, se não as objetivarmos como um todo e nos posicionarmos ativamente e conscientemente delas.
Todavia, uma vez que o trabalho de Bourdieu lança a questão de construção dessa sociologia reflexiva, mas ao mesmo tempo aponta os entraves que o habitus, as dinâmicas do campo acadêmico e o relacionamento com o campo político têm sobre ela, resistindo à sua ação, há em Bourdieu um apontamento ao mesmo tempo do caráter conservador e limitante do ofício de sociólogo como é ensinado na academia, um direcionamento para uma ciência social crítica. Não obstante essa agenda, somos empurrados para uma situação paradoxal, a mesma imposta ante o arsenal teórico do autor: o habitus, enquanto estrutura estruturada, não permite imaginar facilmente rupturas, sua dimensão estruturante como algo além da reprodução.
Em suma, sua análise da questão tem o mérito de apontar os limites postos pelo hábitus aos cientistas sociais, sendo possível ver em suas observações o espaço para ações no sentido reflexivo, mas não como essas atitudes podem se generalizar em termos de institucionalização de uma prática que favoreça o processo de ruptura epistemológica nos termos que propõe, este me parece o seu limite (convencionalmente o limite onde desponta a necessidade de uma organização e ação política contra hegemônica). Assim, a dimensão estrutural do habitus parece inviabilizar uma reflexão em termos mais amplos, de uma revolução qualitativa do habitus, do campo acadêmico. Isto é, quando questionamos como mudar e escapar desse habitus, temos, a partir do processo de vigilância epistemológica, da dúvida radical e da objetivação participante, algumas ferramentas que servem para reagir a elas, mas como tornar essa uma prática mais do que individual? A isto não conseguimos responder facilmente a partir de sua teoria.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOURDIEU, Pierre. "Introdução a uma sociologia reflexiva" In O poder simbólico.
Lisboa/Rio de Janeiro, DIFEL/BERTRAND, 1989.
KUHN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2011.


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