Verdades Parciais: reflexões sobre a autoridade etnográfica
Elyson Vander dos Santos1
O seminário elaborado por James Clifford e George E. Marcus publicado no livro “A escrita da cultura: poética e política da etnografia” abarca pontos relevantes, reflexivos, (des)construtivos e, especialmente, discursivos no que tange a questão da escrita etnográfica, o seu papel atuante e suas considerações históricas, levando-se à contextualizações da autoridade etnográfica (o que faz o antropólogo? Como se comporta em seu trabalho de campo e academicamente?), refletindo se a escrita etnográfica representa, de fato, a realidade em sua totalidade. Ainda, problematizações são levantadas sobre questões objetivistas, relacionadas, especialmente, ao discurso cientificista presente por vários anos, e subjetivistas, através das próprias percepções/reconstruções dos indivíduos de sua realidade e de elementos acessórios que busquem explicar a realidade dos indivíduos. A concepção da escrita, enquanto visualização das culturas, nesse trabalho, é problematizada, sendo contestado o contexto de separação da redação minuciosa dos fatos (quase incontestável) com o aspecto subjetivista, e se essa mesmo não pode assumir dimensões poéticas e políticas para explicações e se constituir como conhecimento que expresse alguma verdade e seja válido. Nesse trabalho, busco refletir sobre esses pontos levantados pelo autor e apresentar as principais questões sobre eles.
A começo, considero interessante verificar o porquê do título introdutório ser “Verdades Parciais”. É sabido que a discussão se dará em torno da escrita etnográfica, mas por que o cunho de parcial? A ideia de parcialidade está ligada a algo que se apresenta em partes (ou seja, algo que não corresponde ao todo); também significa assumir um posição a partir de uma visão determinada, sem considerar os aspectos exteriores, em torno e adereços a ela, representando a verdade (o todo). Nesse sentido, é explorado desde o início a questão de interdisciplinaridade, a qual irá se fazer através de diversas áreas do saber e do conhecimento, culminando na criação de um novo objeto (referência). Se trata de algo que tanto o autor ressalta como importante para a tentativa de compressão, o que defende para o exercício da compreensão e da explicação das realidades coletivas, o conhecimento de diversas áreas do conhecimento e do saber. Tangente a isso, visto a diversidade e a complexidade que é a realidade, a autoria/autoridade da cultura e das representações não pertencem a ninguém. (Roland Barthes Jeynes chercheurs). A se pensar isso, é interessante relacionar ao que é apreensivo através de Price (1983) em “First Time: The historical vision of an Afro-American People”.
1 Graduando em Ciências Sociais (Bacharelado)
A obra exemplifica a parcialidade presente nos Saramaka, uma sociedade Maroon do Suriname. Nela, os indivíduos anciãos passam o seu conhecimento aos parentes masculinos mais jovens de forma parcial, de forma como sobrevivência desta sociedade, dessa forma, muito se deixará de saber daquilo conhecido pela geração mais velha na geração mais jovem, mantendo no conhecimento várias lacunas. Price (op. cit., p. 10) assume então: que “[...] O pressuposto é de que o conhecimento de uma pessoa deve aumentar lentamente, e só se conta a alguém, sobre qualquer aspecto da vida, um pouquinho mais do que o falante supõe que ele já sabe”. Obstante a isso, também se configura o saber do antropólogo, conhecendo o circunstancial do que se sabe, precisando de ilimitados encontros passados pelas esferas do poder parte ter o conhecimento em sua completude. (1986, p. 39).
Observando a posição que o antropólogo assume no campo, pode-se ressaltar a escrita a partir da observação participativa de Malinowski. No texto, é trazido no texto a foto em que Malinowski está dentro de uma tenda, cautelosamente escrevendo, em pouse para uma foto, enquanto os indivíduos estudados o observam com teor de curiosidade. Na observação participante, o antropólogo se envolve nas atividades de coletividade do grupo, observa, abstrai e escreve, sendo a escrita sua primazia, parte própria do seu trabalho. A objetividade é buscada na escrita dessa realidade, seguindo o que se exige do campo científico, embora nessa época o método já oscilava em um equilíbrio delicado entre subjetividade e objetividade. (1986, p. 45). Nisso que descreve Clifford – o antropólogo codifica e decodifica a cultura (ano) – ou seja, dá significados a ela (através de suas impressões) ao mesmo que tenta explicá-la em seus variados aspectos. Nessa abstração, inevitavelmente o antropólogo colocará suas impressões (portanto, aspecto subjetivo) sobre os fatos ocorridos, pois, ainda que sejam organizadas sistematicamente de forma a representar trabalho objetivo, é através das impressões próprias do etnógrafo, vivente e socializado em outra realidade social, que dirá o que determinadas práticas, comportamentos e organizações significam. Está associada à invenção e não à representação das culturas. (1986, p. 33).
A ciência usa de aspectos da história e da própria escrita em seus trabalhos, portanto, os aspectos poéticos e políticos, enredados neles, são inseparáveis dela. (1986, p. 32). Ela irá considerar o presente e o passado dos construtos sociais e, através da modelagem da escrita dos trabalhos de campo, na Antropologia, por exemplo, irá publicar seus trabalhos acadêmicos. Após isso, James Clifford traz à tona o fato das abordagens “literárias” estarem mais presentes nas ciências humanas na sua época, in case, 1985. Mas isso não é algo presente exclusivamente do seu tempo. Desde os escritos de Malinowski, já se podia identificar que ele foi autor de seus textos, com sua própria identidade autoral. (P.34) Antropólogos como Mead, Sapir e Benedict já se viam a si mesmos como antropólogos e artistas literários. (1986, p. 34). Em Paris, também, haviam trocas entre arte e ciência, com o movimento de conversa do
surrealismo com a etnografia. Porém essa abordagem relativa ao literal estar presente em qualquer trabalho é uma ideia recente na disciplina. Ressalta-se que se trata de uma questão que vai além de uma boa escrita ou estilo próprio, mas essa caricatura – com o uso de metáforas, figuração e narrativa – afetam diretamente as formas como os fatos culturais são registrados (1986, p. 35).
O discurso colonial e sua manifestação enquanto projeto de dominação na sociedade foi um dos fatores que abriu brechas para questionamentos da escrita objetivista. A obra citada “L’Etnographe devant le colonialisme” (p. 40) de Michel Leris, em 1950, foi o chamariz para se pensar essas questões. O antropólogo, nessa situação, está a serviço da Europa para conhecimento dos indíviduos e formas de mitigação de conflitos dos grupos colonizados. Na obra, é chamada atenção à antropologia estar lidando com a determinação histórica (projeto colonial, configurações sociais) e o conflito político (Europa-colônias) enquanto realização de seu trabalho. Assim, o antropólogo assume uma forte posição de poder. A partir da década 60’, a antropologia se estilhaçou. A partir dessa época, diversas correntes de explicação tomaram conta das áreas do conhecimento: hermenêutica, estruturalismo, história das mentalidades, nomadismo, genealogia, pós-estruturalismo, pós-modernismo, pragmatismo; insurgindo como forma de crítica, mormente, das formas de pensar do Ocidente (1986, p. 42), provocando mudanças no equilíbrio predominante entre subjetivo/objetivo (1986, p. 46).
A concluir, o que Clifford mais aparenta desejar é destacar que a realidade cultural apresenta um grau muito elevado de complexidade para ser explicado em sua totalidade em um relato cultural; de que os textos estão enredados em aspectos poéticos, políticos e, portanto, subjetivos, relacionados com outras áreas do conhecimento, e, com isso, passíveis de diversas compreensões; sobre o sujeito ser além de objetos de estudo e além daquilo que se espera dele ou que se constrói sobre ele. Mas, sobretudo, que a poesia nesses relatos tem a sua validade, não sendo inferior e que pode ser “histórica, precisa e objetiva” (1986, p. 60). Ainda, que a etnografia seja apenas literatura, mas que ela se faz como saber, assim como ela o é, por ser sempre escrita.
MATERIAL REFERENCIAL
CLIFFORD, J. Introdução: verdades parciais. In: CLIFFORD, J. e MARCUS, G. A escrita da cultura: poética e politica da etnografia. Rio de Janeiro: UERJ/Papéis Selvagens, 2016 (1986)




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